Lost Soul Aside começou como o projeto de um único desenvolvedor, mas depois obteve o apoio da Sony. Em algum ponto de sua longa jornada, no entanto, algo deu errado. Se foi falta de orçamento, um lançamento apressado ou simplesmente descaso, é difícil dizer. O que importa é o resultado final: um jogo que, fazendo jus ao nome, parece ter perdido sua alma no meio do caminho.
Vou começar falando da sua gameplay, pois é a proposta principal do jogo e seu ponto mais forte, já que todo o resto é consideravelmente fraco e você não pode esperar nada de significativo.
Não vou citar os bugs, falhas, falta de otimização e outras coisas mais obvias, pois isso é ajustável com o tempo. Os maiores problemas de Lost Soul Aside estão na proposta do jogo e aplicação de suas ideias.
O combate melhora conforme você avança
A proposta de Lost Soul Aside é ser um hack and slash linear com ênfase em uma jogabilidade dinâmica, como um Devil May Cry ou Bayonetta. Mesmo assim, naquilo que ele se propõe, a execução falha.
O jogo melhora conforme você avança na campanha, introduzindo mais poderes, habilidades e interações com o cenário, mas nada disso realmente se encaixa de forma coesa. Comparações nem sempre são ideais, mas posso citar muitos hack and slash da era do PS2 que são significativamente melhores, o que deixa um gosto amargo na boca ao jogar um título desta geração, que deveria se apropriar dos avanços tecnológicos para oferecer uma experiência melhor.
O fato é que cada arma tem sua própria árvore de habilidades e, além disso, você pode usar as habilidades de Arena (o dragão que te segue). No entanto, essas habilidades possuem um tempo de recarga elevado, o que o força a depender quase que inteiramente de seus ataques básicos.
Isso não seria um problema, mas a maioria dos combos e habilidades em Lost Soul Aside são… dispensáveis. Habilidades que exigem segurar um botão, por exemplo, mostram-se inúteis em batalhas contra chefes que se movem constantemente e exigem timing preciso.
No fim das contas, você passa cerca de 80% do tempo esmagando o botão de ataque rápido e tentando encaixar os ataques fortes quando possível, independentemente da arma ou das habilidades desbloqueadas. Basicamente, a jogabilidade se resume a dois botões.
É possível esquivar e dar parry, inclusive em versões perfeitas que são essenciais no combate, mas o jogo não tem comandos responsivos, o que torna as mecânicas defensivas imprecisas.
Responsividade dos controles são ruins
Joguei Lost Soul Aside PS5, então não posso falar por outras plataformas, mas os combos, golpes e até mesmo os saltos carecem de responsividade. Muitas vezes os comandos não registram ou o combo se estende além do tempo desejado, e em muitos casos não é possível cancelar uma animação para esquivar.
O salto e o controle aéreo também não são bons. Por exemplo, após um pulo duplo, o personagem é forçado a uma animação de recuperação ao aterrissar. Se você quiser saltar imediatamente de novo, ele executará apenas o segundo pulo. É preciso esperar a animação terminar para conseguir dar o pulo duplo completo novamente, o que é bem irritante em trechos de plataforma que exigem timing.
Em suma, o jogo se propõe a uma experiência de combate ágil e dinâmico e, mesmo assim, não senti que conseguiu cumprir seu objetivo. Os golpes não têm impacto. Senti mais emoção explodindo monstros na mina de Stardew Valley com o Anel Napalm.
Direção de arte é básica
Nada em Lost Soul Aside realmente chama a atenção, e a originalidade passou longe. Cenários repletos de cristais e inimigos genéricos parecem cópias diretas de Final Fantasy, enquanto as armaduras lembram uma versão de baixo orçamento de Cavaleiros do Zodíaco. Os personagens são tão esquecíveis que você esquece seus nomes e aparências dois dias depois de jogar.
Não é um jogo memorável.
No entanto, dizer que a arte é ruim também seria um exagero. Os cenários são bem-feitos, assim como os figurinos. O problema é que não existe vida, não existe coração, não existe uma identidade artística que o defina.
É fácil confundir os personagens se você não prestar atenção, pois eles são facilmente ignoráveis. O único com uma fagulha de personalidade é Arena, o Dragão, que seria bem melhor sem seus diálogos irritantes, repetitivos e suas mudanças de humor abruptas e sem motivo.
No mais, a dublagem em inglês é terrível. Tive uma experiência significativamente melhor mudando para chinês e japonês, o que recomendo para uma imersão sonora mais bem cuidada.
A única coisa mais vazia que a história são os diálogos
A superficialidade da narrativa já era esperada, afinal, não é o foco do jogo. No entanto, mesmo com motivações genéricas, personagens que surgem do nada e desaparecem sem causar qualquer efeito na trama, não pude deixar de notar a quantidade de diálogos desnecessários que não levam a lugar algum.
Novamente, deixe o áudio em japonês ou chinês, pois a dublagem em inglês torna tudo muito mais incômodo.
Os personagens raramente chegam a alguma conclusão com suas falas, mas mesmo assim não param de falar. A maneira como a história se desenrola deixa uma sensação de estranheza, como se elementos tivessem sido inseridos às pressas, quase como um improviso.
Em alguns momentos, parecia que o jogo não se levava a sério. Se a proposta fosse mais autoconsciente, como em Stranger of Paradise, que abraça o quão genérico seu protagonista é para fazer piada, talvez Lost Soul Aside fosse melhor. Mas não… o jogo realmente se leva a sério, e esse foi o seu pior erro.
É justo colocar um jogo indie nessa posição? Sim, se ele tem o valor de um AAA
Vamos por partes. Lost Soul Aside teve um orçamento baixo (entre US$ 8 e 14 milhões) e uma equipe muito pequena. Além disso, seu criador é inexperiente no mercado. Logo, não é justo compará-lo a um jogo AAA ou a títulos feitos por estúdios maiores e mais experientes.
É importante repassar para o jogador que, mesmo diante de todas essas justificativas, que são válidas, sua experiência pode ser muito, muito ruim.
É muito difícil entrar na indústria de jogos e principalmente lançar seus jogos com alguma perspectiva de sucesso. Ainda assim, estamos falando e milhões de dólares, o orçamento não foi minúsculo como o de muitas editoras indie ou até devs solitários. Havia a possibilidade de aconselhamento, direcionamento e muito mais.
Tudo isso seria perdoável se Lost Soul Aside não tivesse o preço de um AAA. Claro, a culpa maior pode ser da Sony, publisher do hack and slash, mas o fato é que o jogo não vale o que custa. Talvez com um preço bem mais baixo a recepção fosse menos negativa.
Ainda assim, se você gosta do gênero hack and slash e quer testar Lost Soul Aside descompromissadamente, eu sugeriria esperar uma boa promoção ou mesmo que ele chegue à PS Plus (o que não deve demorar muito).
Se o jogo perdeu a alma no caminho por conta da publisher ou alguma outra razão, é difícil cravar, mas o resultado final é coerente com seu próprio título: um jogo perdido e sem alma.
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Fazendo jus ao seu nome, Lost Soul Aside é um jogo sem alma. Seu combate, que deveria ser o ponto mais forte, sofre com a falta de responsividade e se resume a esmagar dois botões, enquanto sua direção de arte genérica e sua história vazia falham em causar qualquer impacto. Apesar de suas origens indie, que poderiam justificar algumas falhas, seu preço de lançamento como um jogo AAA torna suas deficiências difíceis de perdoar.
Créditos Autor: Vika Rosa
Créditos Imagens: Reprodução Internet
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