O engenheiro Timur Kristóf, integrante da equipe de drivers gráficos Linux da Valve, concluiu no último sábado (18) uma série de correções no driver AMDGPU que finalmente permitem o funcionamento pleno da Radeon HD 7870 XT em distribuições Linux.
O trabalho resolve um problema que os relatórios de bug acompanham desde 2013, ano em que a placa começou a apresentar falha sistemática em qualquer tentativa de uso com os drivers de código aberto da plataforma.
A placa, apelidada internamente de Tahiti LE e também conhecida entre entusiastas como a “7870 XT” por razão comercial, foi lançada em novembro de 2012 pela AMD como produto derivado de chips descartados das linhas topo de linha baseadas no mesmo Silício.
O caráter híbrido do hardware explica parte do imbróglio técnico e a demora quase bíblica para a solução definitiva.
A história de um bug que atravessou três versões do kernel
Os registros da comunidade de desenvolvedores Linux apontam a primeira reclamação pública em 2013, quando um usuário da Sapphire Radeon HD 7870 XT documentou a impossibilidade de inicializar o bloco gráfico com o driver aberto.
Em 2023, uma década depois, outro relatório detalhou o mesmo cenário: a placa permanecia incompatível com qualquer distribuição popular. O caso ficou engavetado até o último semestre, quando Kristóf começou a investigar o código do AMDGPU e identificou a causa raiz.
Conforme descreveu o engenheiro na mensagem pública que acompanhou o envio do patch para a lista de discussão do kernel:
“Esta série corrige o amdgpu para funcionar na Radeon HD 7870 XT, que nunca havia funcionado antes com os drivers de código aberto do Linux.”
O patch altera módulos específicos do AMDGPU, com ajustes pontuais em arquivos como amdgpu_gart.c, amdgpu_uvd3.c e um novo método em amdgpu_gmc.c dedicado à leitura de configurações de TCC desabilitadas.
Por que a placa era um caso único
O cerne do problema está em como a AMD produziu a 7870 XT. A empresa aproveitou chips Tahiti das linhas Radeon HD 7950 e 7970 que apresentavam algum defeito de fabricação e os recondicionou desativando clusters específicos para chegar às especificações da 7870 XT.
O processo, conhecido no jargão da indústria como harvesting, é comum e ajuda a aumentar o aproveitamento de wafers, porém deixa cada unidade com um padrão de circuitos desligados ligeiramente diferente.
O detalhe técnico que travava o driver Linux residia na forma como o TCC (Texture Cache Coherency) aparece nesses chips. Em vez de uma configuração uniforme, as Tahiti LE traziam parte da cache parcialmente desabilitada ou fundida, situação que o AMDGPU não sabia ler corretamente.
O resultado era um driver que simplesmente recusava se inicializar com o hardware. As correções de Kristóf introduzem a lógica necessária para identificar quais TCCs seguem ativos em cada unidade e aproveitá-los de maneira otimizada.
O trabalho contínuo da Valve para resgatar GPUs antigas
A correção da 7870 XT é apenas o último capítulo de uma empreitada mais ampla. No fim de 2025, Kristóf liderou o movimento para transformar o AMDGPU no driver padrão das placas Sea Islands (GCN 1.1), deslocando o antigo driver Radeon do kernel. Esse ajuste destravou desempenho melhor, RADV Vulkan nativo e correções acumuladas para toda uma geração considerada obsoleta pelos fabricantes.
Há duas semanas, outra leva de patches promoveu a mesma transição para APUs da família Kaveri, Kabini e Mullins, todas classificadas como GCN 1.1. Em paralelo, a Southern Islands (GCN 1.0), geração que engloba a 7870 XT, recebe atenção pontual para resolver casos isolados como o da Tahiti LE. Com essa última correção, o driver aberto cobre virtualmente todas as configurações de GCN 1.0 e GCN 1.1 em circulação.
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Steam Deck como motor por trás da manutenção
A Valve assumiu um papel incomum no ecossistema Linux a partir do Steam Deck, console portátil baseado em hardware AMD e sistema operacional SteamOS, derivado do Arch Linux.
Para garantir que o catálogo de jogos rode bem no console, a companhia investe pesadamente em melhorias do stack gráfico aberto, incluindo Mesa, RADV, ACO e o próprio AMDGPU. Os ganhos circulam para toda a comunidade Linux, e placas antigas acabam se beneficiando por tabela.
O paradoxo é notável. A AMD, fabricante do hardware, reduziu drasticamente o suporte oficial a placas de gerações pré-RDNA. Quem mantém essas GPUs vivas em 2026 é um funcionário de uma empresa que começou na venda de jogos online e hoje emprega engenheiros dedicados a escrever drivers para placas lançadas há mais de uma década.
Para quem ainda tem uma 7870 XT parada na gaveta, o caminho agora é atualizar o kernel para uma versão próxima da Linux 7.1 quando ela for publicada, aguardar a adoção pelas distribuições populares e, enfim, ver a placa funcionar pela primeira vez em um sistema aberto após quase 14 anos de espera.
Fonte(s): Phoronix
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